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Mais de três quartos dos grandes carnívoros em declínio

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Por Marisa Soares
Investigadores alertam para a necessidade de preservar os grandes predadores, “essenciais” para a sobrevivência dos ecossistemas e, em última análise, do próprio Homem.

carnívoros
PHOTO/DDP/MAURIZIO GAMBARINI

Os grandes carnívoros estão a desaparecer das paisagens que sempre lhes deram abrigo – e com isso está em risco a própria sobrevivência do Homem, avisam os ecologistas. Um estudo publicado na revista Science revela que mais de três quartos das espécies carnívoras de grande dimensão, como leões, lobos e até as lontras marinhas, estão em declínio.

Uma equipa de 14 especialistas em ecologia e conservação da natureza analisou 31 espécies de mamíferos carnívoros de grande dimensão e concluiu que 24 (mais de 75%) estão em declínio populacional, principalmente na Amazónia, no sudeste asiático, e no sul e leste de África. Do total de espécies estudadas, 17 ocupam actualmente menos de metade do seu habitat original – é o caso do leão africano (Panthera leo), que habita hoje em 17% do território onde se encontrava inicialmente.

“Os grandes carnívoros enfrentam enormes ameaças que causaram declínios massivos nas suas populações e na sua distribuição geográfica, incluindo a perda de habitat, a degradação, perseguição, utilização e esgotamento das suas presas”, referem os autores do estudo Status and Ecological Effects of the World’s Largest Carnivores (Estado e efeitos ecológicos dos maiores carnívoros do mundo).

Os especialistas reforçam que os carnívoros de grandes dimensões têm um papel “essencial” na estrutura e na estabilização dos ecossistemas, sublinhando que o seu desaparecimento provoca importantes alterações nas cadeias alimentares, com efeitos na vida das aves, dos mamíferos e dos invertebrados, nas dinâmicas de doença, no sequestro de carbono, nas culturas agrícolas.

Os investigadores destacam sete espécies importantes cujo desaparecimento – a maioria está em perigo de extinção – tem efeitos documentados nos ecossistemas onde estão inseridos: lontra marinha (Enhydra lutris), leão (Panthera leo), dingo (Canis lupus dingo), puma (Puma concolor), leopardo (Panthera pardus), lince-euroasiático (Lynx lynx) e lobo cinzento (Canis lupus). Estas duas últimas ocorrem na Europa.

Durante a investigação perceberam, por exemplo, que o aumento da população de babuíno-anúbis em África está directamente relacionado com o declínio de leões e leopardos, espécies naturalmente temidas pelo Homem. No entanto, os babuínos representam um perigo muito maior para as culturas agrícolas e para os restantes animais, notam.

Outro exemplo: os autores analisaram a diminuição das populações de lobos e pumas do famoso Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, constatando que esta levou ao aumento do número de corsos e veados. Esta alteração, que à partida pode não parecer negativa, foi prejudicial para a vegetação, para as aves e para os pequenos mamíferos, levando a uma série de danos “em cascata”, referem.

Daí que os autores do estudo aplaudam a reintrodução do lobo em Yellowstone, em curso há 15 anos. “Estou impressionado com a capacidade de resiliência do ecossistema de Yellowstone. Não está a acontecer rapidamente em todo o lado, mas em alguns locais, a recuperação do ecossistema já começou”, disse à BBC William Ripple, da Universidade Estatal de Oregon, nos EUA, que liderou a investigação.

Com este trabalho, os autores pretendem impulsionar iniciativas de conservação dos grandes carnívoros, que promovam a co-existência pacífica destes animais com os humanos. O problema está na ideia, enraizada na sociedade, de que os predadores são perigosos e representam apenas uma ameaça para os outros animais selvagens. “Nós defendemos que estes animais têm o direito intrínseco a existir, mas também proporcionam serviços económicos e ecológicos que as pessoas valorizam” e que dificilmente são replicáveis, como o sequestro de carbono e o controlo de doenças, afirma.

“Promover a tolerância e a coexistência com os grandes carnívoros é um desafio social crucial que, em última análise, vai determinar o futuro dos grandes carnívoros na Terra e de tudo o que depende deles, incluindo os humanos”, lê-se no resumo do estudo. Os especialistas acreditam que projectos como a Large Carnivore Initiative for Europe, um grupo ligado à União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), que promove a conservação dos grandes carnívoros na Europa, podem fazer a diferença.

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